22 de fevereiro de 2017

Escrevo-te

Num lugar frio, incolor e impessoal permanecias deitada. Há dois dias que não falavas, mesmo assim na véspera enquanto te debatias…disse-te: “Sou eu, a Anna, tua filha! Tu sabes que estou aqui sempre contigo.” Com esforço balbucias-te, “Eu sei!,” e seguraste o meu pulso com tenacidade. A partir dai a tua voz aquietou-se.
Naquela tarde de domingo, falava-te de amor, o nosso, que transcende tantas vidas, e acariciava o teu rosto. Como se o amor bastasse; como se o amor te despertasse, como se o amor te devolvesse; nos devolvesse. Não! Não chega.
Diante dos meus olhos partiste, serenamente, para escapar ao sofrimento que um maldito sarcoma te impôs. Lutas-te até ao fim, mas o destino estava traçado. Nem as nossas forças te valeram.
Tu foste, eu fiquei. Não sei quanto de mim ficou nesta indefinição. Sei apenas que muito de ti permanece em mim.
Tinha 4 anos quando te conheci. Era uma miúda frágil, órfã de mãe. Escolhemo-nos como mãe e filha – um laço muito forte. Foste uma estrela nas nossas vidas. Prolongaste a vida de uma criança que segundo alguns “sábios” não chegaria à idade adulta. Eu.
35 anos depois procuro resgatar a tua resiliência, bondade e coragem para seguir em frente. Sei que não permitirias outra escolha.
Talvez seja das nossas conversas que sinta mais falta.
Perdoa-me se ainda não consigo sorrir de coração aberto, como tu querias. Dá-me tempo.
Entre os diversos privilégios que recebi, estou grata à vida por ter sido tua filha, continuará a ser uma honra enquanto respirar.

Obrigada mãe por teres permitido que te ame o melhor que pude, que posso e que poderei.
Dá-me tempo, apenas…



15 de fevereiro de 2017

De volta

Devagar proponho o regresso.
Foram páginas diferentes do livro da vida, de leitura paradoxal.
Falarei lentamente enquanto junto as peças do puzzle desmembrado.
Fiquem por ai. <3
“Tudo se encaixa!” – Costumava dizer como um mantra. Assim seja!

Reaprendo a flutuar...