17 de julho de 2016

Dias e dias

O diâmetro dos dias tem os seus desígnios.
Se comparar com o quotidiano de há uns meses, nestas últimas semanas tenho experimentado algum apaziguamento. Curiosa e estranhamente a tensão muscular tem feito comícios à rebeldia. Nada de irresolúvel: seja com diplomacia ou com chicote.
É uma calmaria superficial. Falta conhecer os últimos resultados médicos; saber se os próximos 2/3 meses serão assim – sem idas e vindas hospitalares com todo o peso e significado inerentes. Evito pensar, mas os neurónios dão luta.

Em paralelo, entrou na minha vida alguém que restabeleceu parte da segurança perdida. Sei que posso contar com ela. É engraçado como depois de tantos desencontros, o destino encaixou os ponteiros – dá que pensar (ou talvez seja assim que deve ser)! Podia ser apenas uma parceria? Sim! Contudo, há uma ligação bem mais consistente que o tempo irá consolidar.

As emoções parecem querer desalinhar a órbita. Depois de tanto “trabalho” para serenar a rapaziada do hemisfério cerebral direito, eis que dou por ela em modo “tonturas”. Vejamos: em poucos dias, cruzei-me com histórias reais – autênticos socos no estômago – que envolvem crianças, adultos, velhotes e animais vitimas de carrascos desumanos com aspeto de gente. Uma a uma foi dissolvendo o escudo criado.
Já estava a amolecer quando um parente confidencia que o gatinho que recolhera da rua, ainda bebé em Outubro último, caiu da varanda e fraturou as patinhas da frente. Está internado e será operado muito em breve. Nas entrelinhas desta história trágica emergiu a tenaz proposta de nem tentar salvar a doce criatura. «Uma facada no peito dos donos.» –  Subentendi em choque através das confidências.  O dinheiro está a anos-luz de sobejar no seio daquela família, mas a dignidade humana sobrepõe-se ao que para muitos indigentes será tido como essencial e indispensável.

Penso para comigo: não ser capaz de imaginar aqueles dois miúdos de 7 e 13 anos (aproximadamente) a chegarem a casa e depararem-se com tal cenário. Nem consigo calcular como é que aqueles dois adultos geriram a situação. A imagem que mais vezes atravessa os meus olhos, é a do gatinho… chama-se Lucky. Faça-se justiça ao seu nome.

Do trivial concluo, mais uma vez, que sou de estranhas vontades. Se por um lado desejaria parar o tempo para não voltar ao dia-a-dia dos últimos meses, por outro queria empurrar os ponteiros para saber em concreto como serão os meses ou semanas seguintes e para o Lucky já estar recuperado.

Seres dicótomos é o que somos.

Sem comentários:

Enviar um comentário