5 de março de 2016

Candeeiro de Pedra


Algures, para lá de nenhures, existe um candeeiro apagado.
À luz do dia é invisível: quem passa não o vê e quem lá pára não ouve seu respirar.
De noite é ignorado pelos morcegos. No escuro vive em sobressalto. A música delirante dos bêbados aos trambolhões abana o seu esqueleto subnutrido, arrepia os seus fios outrora a funcionar e estremece a lâmpada rachada. Ainda que se sinta ameaçado, os bêbados cadentes são os únicos a vê-lo antes da ressaca. Vêm-no infiltrado nas alucinações, como um corpo estranho. Ora minga, ora cresce, ora triplica em sombras a rodopiar.
Naquela rua sem nome o candeeiro sente-se só, perdido em lembranças esfarrapadas e corrompidas pelo tempo.
Vem-lhe muitas
vezes à memória a menina-mulher de saltos altos, vestida de vermelho. Dançaram tantas vezes juntos: a melodia do olá, o samba do verão, o twiste, a rumba e a serenata à chuva.
A mulher envelheceu, desceu dos saltos e desapareceu.
Pobre candeeiro alucinado e solitário, à espera dela, que é como quem diz: doido de pedra.


|12-2-2013|

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