13 de junho de 2017

Caminhante

Caminhante por ruelas sem nome, despede-se, a cada passo, do vento que a havia circundado. Nas pedras da calçada calcorreada deposita os gritos, as palavras mudas, as silabas gravadas, as notas de música entrelaçadas na ampulheta estanque. 
Trespassa multidões vazias de gente. É atropelada por uns quantos solitários  e, até, ausentes de si próprios. Tenta desenhar as histórias daqueles seres: razões, sentimentos e enredos mesurados pelo olhar de cada um.
São histórias – umas cruzaram a sua, outras nem tanto – timbradas em livros fechados e encaixotados.

Caminha sem bagagem com um livro em branco por escrever.
Flutua.


11 de junho de 2017

Pensamento #18



6 de junho de 2017

Vazio


Daqui a poucos dias faz 5 meses que me morreste. Diante do meu olhar incrédulo abandonaste um corpo que te algemava a um sofrimento lancinante.
Depois de permitirem voltei a ti, puxei o lençol e trouxe a tua mão ao meu rosto. Nunca havia sentido tanto frio. Um frio que permanece até hoje.. Uma lividez e um cheiro qúe vai reaparcendo demasiadas vezes.
Não sei como te sobrevivi tanto tempo.
Poderia suplicar-te, aliás já o fiz: "Leva-me contigo. "  Na verdade,  mãe,  acho que já fui. O melhor de mim partiu contigo.
Sinto falta de não-julgamento e de paciência para com a minha condição;
falta de acreditar que sei o que fazer;
falta de chão;
falta de céu;
falta de abraço verdadeiro;
falta de mim... de ti - essencialmente ďe ti.

Momentos houve, neste entretanto, que me senti e julguei capaz. Agora... este  "agora" não é nem tempo, nem substantivo, nem verbo é nem adjectivo. É tão somente um vazio em mim.
Há quem me culpe por ... sei lá porquê. Talvez porque não me conhecem e por te esquecerem com facilidade.

22 de maio de 2017

Palavras que nutrem



À DESCOBERTA DO AMOR
Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol 
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive á sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo.

Mahatma Gandhi

2 de maio de 2017

Play Music #2

Alegoria do hoje


Eleger o sofrimento como tema de conversa é banal. Já nos habituámos a revirar os olhos de tédio ou a reflectir sobre ele.
Já fui tendencialmente pessimista e amedrontada. Cansei-me. Comecei, então, a adquirir conhecimentos científicos sobre o seu antónimo: o optimismo. Parecia tudo muito bonitinho mas faltava qualquer coisa. O foco elegeu a prática e o pragmatismo como fontes do saber. Fiquei satisfeita com o caminho encontrado.

É curiosamente estranho como, embora fale na primeira pessoa, sinta como se narrasse outra vida. 
Hoje se me perguntassem se sou positiva ou negativa, não saberia responder. Não me conheço muito bem após o desaparecimento de pessoas tão queridas num curto intervalo de tempo. Em especial uma: a mais próxima de mim.
Sou hoje um vazio por preencher, uma melodia monocórdica, um sentido sem poente. Uma voz que ora segue direcções aleatórias, ora foge e se encolhe. Não vá a crosta fina do coração ceder a mais uma derrocada. De súbito, não sei quem sou ou o que faço aqui.
Hoje é assim.

21 de abril de 2017

Persistir...afinal


Há lugares escondidos.
Espaços de silêncio com sonoridade.
Objectos que falam sem cessar…
Gavetas e prateleiras que se arrumam entre tantos vazios ignorados.
Inexplicavelmente recomeço a existir no alinhamento de tempo. Permito-me ser  empurrada para finalidades, objectivos e planos.
Eu, que duvidei poder respirar sem ti, consigo, afinal, assinalar no calendário dias que chegarão.
Aprendo esta tua nova forma de ser: aquela estrela saliente ao luar… és tu a dizer-me que persista além dos “impossíveis”
Amanhã participo numa apresentação pública. Ias gostar de certeza.
Ainda me custa a acreditar que reuni forças para ir com empenho. Será uma homenagem não declarada ao amor que te persiste para além dos tempos.